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Anelisa Sangrava Flores
Anelisa Sangrava Flores

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Pouco depois passou a caminhar e a se perder pelo quintal. Brincava com a terra e passava os dias metida no jardim. Aprendeu a falar, mas não dizia muito, pois era dada à contemplação. Na escola, ao desenhar o alfabeto, se encantou pela letra t por se assemelhar aos botões das flores que decoravam o jardim de sua casa. Nas aulas de desenho, gostava de colocar a letra o no canto superior esquerdo da folha para simular o sol: as nuvens eram formadas por algumas letras m dispostas lado a lado, umas sobre as outras. A consoante v, replicada, representava os pássaros. Acrescentava depois ao cenário as letras i, t, e p que, juntas, moldavam um jardim imaginário. Desde cedo Anelisa aprendeu a se expressar de maneira muito particular.

Sangrou flores pela segunda vez ainda menina. Esgueirou-se pela cozinha enquanto a mãe preparava o almoço, afanou uma faca de ponta afiada e correu para o quintal. Com a extremidade perfurante do objeto, desenhou uma paisagem no muro da casa. Durante os retoques, falhou a pontaria e a lâmina foi de encontro à carne. O choro fugiu pela garganta, e duas gotas de sangue escaparam para o chão. Quando a mãe chegou para socorrê-la, as gotas derramadas sobre a terra eram gérberas avermelhadas.



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