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O Piano
O Piano

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Abro a porta do apartamento e aspiro o perfume das lembranças. Escancaro as janelas e ouço o som de uma cidade transformada e de um bairro que cresceu. Antes que cinco homens subam para buscar o piano e o levem definitivamente para longe de meus olhos, retiro a capa preta de veludo que o cobre. Em vão, procuro na madeira laqueada qualquer marca dos dedos compridos de Celina.

Ao levantar a tampa, logo reparo nas teclas amareladas e no marfim manchado pelo tempo. Com suavidade, percorro a mão em movimento em todo o teclado, do agudo para o grave e, inevitavelmente, ouço as batidas aceleradas do meu coração. Puxo a banqueta e, enquanto procuro a posição correta, angustio-me com o fato de que me restam poucos minutos para qualquer execução. Ainda assim, minhas mãos tocam o Prelúdio I de “O Cravo Bem Temperado”, de Johann Sebastian Bach.

Conforme sinto os fraseados da música, lembro-me do desenho circular, no ar, daquelas mãos brancas e longas, com unhas curtas sempre pintadas em tom de vermelho escuro, sinalizando para que eu não perdesse o andamento e não transformasse em romântica uma peça barroca.

Quando começo a tocar a Fuga I, os carregadores chegam. Como uma plateia respeitosa, eles esperam a conclusão da obra para lançar aplausos no ar, que ecoam pelo imóvel vazio.

– Por que a senhora não fica com este piano, dona Áurea?

– Porque ele atesta a grandiosidade da arte de Celina e não posso tê-lo só para mim. Seria incoerente com tudo o que ela viveu e dividiu comigo. Na escola de música ele despertará a paixão em muitos alunos, como um dia despertou em mim.



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